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Livraria Cultura

Por Mariana Melo

Como alcançar novos e inéditos horizontes num setor tão antigo e popular como o de venda de livros? A Livraria Cultura parece ter encontrado uma resposta bastante simples, porém muito eficaz: fazendo do ato de compra uma experiência única de descoberta e prazer. As estratégias adotadas pela empresa, ao longo dos seus 60 anos de vida, nos mostram que não existe um setor excelente, empresas ideais nem executivos extraordinários. O segredo é descobrir um diferencial de valor, algo que faça com que o empreendimento seja percebido como único. Buscando conquistar seu lugar ao sol, a livraria tem como principal missão oferecer ao público um conceito que vai além da simples venda de livros. "Cada loja é um centro de entretenimento, onde os clientes vão não somente comprar, mas atualizar-se, debater idéias",  diz Pedro Herz, atual diretor da Cultura.

Eva Herz, seu filho Pedro e o marido KurtNa história da Livraria Cultura, antes de tudo, temos a referência de uma grande mulher: Eva Herz. A alemã Eva Herz deixou seu país em 1938, acompanhada do marido e da sua mãe. Em 1939, depois de passar pela Argentina, decidiu instalar-se em São Paulo. Para ajudar no orçamento familiar, Eva começou, em 1947, a emprestar livros em troca de dinheiro. Dona Eva acabava de dar o primeiro passo ao que viria a ser a renomada Livraria Cultura. O serviço de empréstimos de livros, que funcionava na sala de sua própria casa, de início contava apenas com dez exemplares, em alemão, de sua biblioteca particular e seu público era principalmente a colônia alemã sediada em São Paulo. Em 1950, Eva resolveu incrementar o negócio e, além de alugar livros, passou a vendê-los. Já nessa época a imigrante alemã era uma referência para as mães que mandavam seus filhos até ela para a obtenção de recomendações literárias. Eva Herz uma vez comentou que "desde que fiz a minha primeira compra, de apenas três livros, lembro de ter dito à minha mãe: isto há de ser uma grande livraria. Uma grande livraria, com qualidade, variedade, bom atendimento era e sempre foi minha meta". Seu sonho era muito mais do que uma premonição, era um projeto com pilares de crescimento já muito bem definidos.

Em 1969, ela abandonou o serviço de aluguel e passou a tocar apenas a livraria, então instalada num sobrado na Rua Augusta, onde as duas salas da frente serviam como loja e a parte de trás como residência para a sua família. No mesmo ano realizou o sonho de instalar-se em um espaço mais amplo e apropriado, mudando-se para o Conjunto Nacional. Um fato interessante é que dez anos antes, quando viu os primeiros operários trabalharem no canteiro de obras do Conjunto, Dona Eva já decidiu: "Vou ter uma loja lá." Isso só foi possível quando a empresa passou a ser dirigida por seu filho Pedro Herz, que está até hoje à frente dos negócios. Na década de 70, teve início o processo de ampliação das instalações da Cultura no Conjunto Nacional. O que tinha começado com uma pequena estante de livros já começava a ganhar força. Foi nesse endereço que a empresa sedimentou o perfil que a tornou conhecida: uma grande livraria, com qualidade, variedade e bom atendimento. Sempre atualizada em todas as áreas, da literatura às áreas técnicas, tanto em relação a publicações nacionais quanto importadas, atendimento ágil e diferenciado com livreiros prontos a aconselhar o cliente em suas compras ou a ajudá-lo a encontrar o livro que procura.

Ao mesmo tempo em que a manutenção da tradição familiar é altíssima, a livraria acompanhou as mudanças ocorridas em torno de sua loja, na Avenida Paulista, que passa a ser o centro financeiro de São Paulo: em 1973, foi inaugurada a unidade dedicada à informática, negócios, finanças, marketing e ciências. Dezessete anos depois, foi aberta a loja especializada em publicações de ensino de línguas estrangeiras e dicionários. Com a premissa de que se algo funciona, já está obsoleto, a Cultura embarca numa busca incansável de criar o novo. Em setembro de 1995, a Livraria Cultura inaugurou seu site na Internet e, seguindo as tendências mundiais, passou a ser a primeira livraria brasileira a vender livros online. A partir desse momento, a empresa utilizou toda a experiência adquirida em suas livrarias tradicionais, conquistando também a confiança de clientes virtuais no mundo inteiro que passaram a ter um canal de compras seguro e com qualidade. Atualmente recebe cerca de 1.500 pedidos por dia e com uma média de 110 reais por encomenda.


Fachada da loja do Conjunto Nacional.

A expansão continuava a todo vapor: no início de 1997, abriu ao público uma loja de 600 metros quadrados no Conjunto Nacional, voltada às áreas de literatura e humanidades, e também no mesmo ano reinaugurou sua primeira unidade, totalmente reformada, que passou a vender exclusivamente livros de arte. A empresa passou a abranger diversos segmentos da informação com um acervo bastante diversificado.

Paralelamente às inovações e aos projetos de expansão, a Cultura ia tornando-se o ponto tradicional de encontro de intelectuais e amigos das letras - as rodas de amigos aos sábados pela manhã passam a ser conhecidas como "a praia dos paulistas". A Livraria Cultura se afirmava como o local predileto para as noites de autógrafos, algumas delas tendo marcado época. A de Fernando Gabeira, por exemplo, em 1979, no lançamento de "O que É Isso, Companheiro?", levou tanta gente ao Conjunto Nacional que houve um engarrafamento humano no saguão. Como se ainda não fosse o bastante, o visitante pode ler qualquer título nas dependências da loja, contanto que o devolva da mesma forma que o pegou. O clima intimista e o atendimento personalizado que sempre atraíram aos intelectuais são as marcas registradas da livraria.

Em 2000, outro grande projeto da diretoria, agora integrada também por Sérgio e Fábio Herz, filhos de Pedro, se concretizou: a Cultura inaugurou sua primeira filial em um espaço de 3 mil metros quadrados no Shopping Villa-Lobos, também na capital paulista. A abertura de uma filial em um shopping center foi motivo de hesitação durante anos por Pedro Herz.  As restrições às mudanças apoiavam-se na preocupação em preservar as características que fizeram da livraria a preferida dos intelectuais paulistanos, sendo também um motivo para que a Livraria Cultura não tenha se expandido através de franquias e sim de filiais. Para Pedro, a possibilidade de franquear não foi cogitada por possíveis e prováveis divergências com o franqueado, o que seria ruim para o nome da empresa. No mesmo ano outra inovação foi adotada por influência de seus filhos: a abertura de espaço para CDs e DVDs , prova de que as propostas de melhorias são sempre bem-vindas pelo diretor.


Interior da loja do Conjunto Nacional.

Em 2003, a Livraria havia aberto sua primeira filial fora de São Paulo, no Bourbon Shopping Country, em Porto Alegre. Em 2004, foi a vez do Recife e, no ano seguinte, Brasília. Em 2006 o shopping Market Place ganhava mais uma nova filial da cidade de São Paulo. A Livraria Cultura repete em suas filiais o consagrado modelo de suas lojas do Conjunto Nacional em São Paulo. E, junto, traz o mesmo conceito: um local de entretenimento em que os clientes vão não somente comprar, mas se atualizar, debater idéias, encontrar pessoas com o mesmo interesse e se divertir.

Em virtude da comemoração de seus 60 anos, em 2007, a Livraria Cultura renovou sua identidade visual e inaugurou uma nova unidade. E a comemoração foi em garnde estilo: a Cultura conquista o posto de maior livraria do país, tanto em tamanho quanto em oferta de produtos. As quatro lojas que ocupavam o Conjunto Nacional foram transferidas para outro espaço, no mesmo endereço, com 4.300 metros quadrados de área distribuídos por 3 pisos. Quando a loja foi inaugurada em maio de 2007, os antigos quatro pontos do Conjunto Nacional foram fechados. Em dezembro de 2007, porém, um dos pontos antigos foi reaberto. O local foi totalmente reformado para abrigar exclusivamente o setor de artes.

Com a meta de ser a melhor loja de informação e entretenimento do setor, a Cultura investe em diferenciais e na excelência acima de tudo. Um ponto forte da Livraria Cultura é a diversidade de seu catálogo, que conta com mais de 2 milhões de títulos. As lojas também estão sempre atualizadas em todas as áreas, tanto no que diz respeito a publicações nacionais quanto a importadas. Cada uma possui um acervo de, em média, 150 mil títulos. Outro atrativo é a diversidade de usos da estrutura física das lojas: a Cultura é palco de concertos, shows, noites de jazz, palestras, cafés filosóficos e noites de autógrafos em todas as cidades onde está instalada.

A Livraria Cultura se consolidou no mercado livreiro, conciliando valores de tradição familiar com a busca incessante pela inovação. A maior livraria do país tem planos de abrir três novas unidades até o final de 2008. A Cultura já fechou contratos para instalar unidades no Shopping Iguatemi Campinas e no Shopping Bourbon Pompéia, além de outro ponto de venda em São Paulo que ainda não tem local determinado. Uma história de sucesso empresarial. Assim pode ser definida a trajetória da Livraria que fez história acreditando no poder transformador da informação.

Empresa: Livraria Cultura
Site: www.livrariacultura.com.br
Contato: através do site
Ramo de atividade: livraria
Funcionários: 900
Faturamento: R$ 154 milhões


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